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SEMEANDO MOVIMENTOS: OS SEM-TERRA CRIAM OUTROS ESPAÇOS DE LUTA
por Ely Estrela



Sem dúvida, o MST é o mais conhecido e o mais organizado espaço de luta dos trabalhadores sem-terra do Brasil. No entanto, nos últimos anos, outras organizações e movimentos vêm ganhado visibilidade e merecendo atenção de estudiosos.

Infelizmente, não dispomos de dados sobre esses movimentos (15 ao todo, segundo Bernardo Fernandes), nos limites deste trabalho pretendemos destacar, apenas a atuação do Movimento da Luta pela Terra, na Bahia.

O Movimento foi criado em 1994, mantendo estreita vinculação com os Sindicatos do Trabalhadores Rurais, as Federações dos Trabalhadores da Agricultura (FETAGS) e a Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG) . Além da Bahia, atua no Pará. É um movimento amplo, mas a grande maioria de seus militantes é ligada ao PC do B (Partido Comunista do Brasil).

Na Bahia, o MLT empreendeu, nos últimos anos, ocupações nos seguintes municípios: Bom Jesus da Lapa (terras da Codevasf), Conceição do Coité, São Sebastião do Passé, Eunápolis, Teixeira de Freitas e Bonito, na Chapada Diamantina (dados do Jornal A TARDE).

Em 29 de setembro de 1999, trezentas famílias organizadas pelos Sindicatos do Trabalhadores Rurais de Guanambi, Malhada, Palmas de Monte Alto e Iuiú, com apoio da FETAG (Federação dos Trabalhadores da Agricultura) da Bahia e do MLT, ocuparam a Fazenda Marrecas, localizada em Malhada, município do Vale do São Francisco(1) .

A Fazenda Marrecas possuía cinco mil hectares e antes de ser hipotecada ao Banco do Brasil (somente 3 mil hectares foram hipotecados) pertencia a um grande latifundiário da região. Na década de 80, nas suas férteis terras era cultivado o algodão, mas com a crise que abateu a produção algodoeira provocada, entre outras coisas, pela praga do bicudo (Anthonomus Grandis, Boheman), o gado substituiu o algodão herbáceo.

A ocupação da Fazenda Marrecas foi muito interessante e mostra a diversidade das situações que os sem-terra têm enfrentado na luta que empreendem pelo Brasil afora.
Devido ao fato da propriedade pertencer ao Banco do Brasil, a ocupação foi organizada sem muito sigilo e transcorreu de forma pacífica. Os carros e caminhões lotados de sem-terra provenientes dos vários municípios da região se encontraram em um ponto próximo à fazenda e dali partiram em plena luz do dia, acompanhados de um séquito formado por políticos e religiosos. Quem são os sem-terra da Fazenda Marrecas?

Entre as décadas de 70 e 80, num perímetro que compreende os Vale do Rio Iuiú e do São Francisco dominou a grande plantação algodoeira. Em face disso, a região atingiu alto índice de crescimento econômico, tonando-se um centro bastante atrativo. Para se ter uma idéia, a cidade de Guanambi, a maior beneficiária do boom algodoeiro da região, registrou taxas de urbanização um pouco superior à média do estado da Bahia, tornando-se, inclusive, uma espécie de pólo regional.

Junto com o crescimento econômico, a grande plantação algodoeira promoveu violenta concentração da terra e a expropriação dos camponeses. Acresce ainda que, a apregoada riqueza da região, atraiu inúmeros migrantes, provenientes de diferentes pontos do Nordeste (o livro Trapos e farrapos, de Juarez Elcino, trata da questão), rapidamente absorvidos pela lavoura algodoeira ou pela agro-indústria instalada na área. A crise do algodão atingiu de cheio a região, deixando um grande saldo de trabalhadores desempregados e sem perspectiva de sobrevivência. Assim, os acampados da Fazenda Marrecas são os deserdados do algodão.

Na área escolhida para instalação do acampamento - próxima a um poço artesiano - rezaram uma missa e em seguida, os trabalhadores sem-terra começaram a marcar os "pontos" para a construção dos barracos.

Á área escolhida para o acampamento é plana e bastante ampla. Os barracos estão dispostos em "ruas" que partem de uma grande praça: a "Praça da Bandeira". É ali que está hasteada a bandeira verde do MLT. As "ruas" têm nomes muito pitorescos, reveladores do clima de união e esperança que reina entre os trabalhadores sem-terra da Fazenda Marrecas: rua da felicidade, rua da esperança, rua da paz.

Os barracos dos acampados da Fazenda diferem dos demais num aspecto: alguns são construídos em taipa e outros não têm cobertura.
A praça e a ruas são limpas e bem cuidadas e no frontal de cada barraco está escrito o nome do seu proprietário. Mesmo cientes de que o acampamento é uma fase transitória, plantaram árvores e flores em frente aos seus barracos. Sinal de persistência e de desafio?

Na Fazenda Marrecas há uma organização interna bastante simples: além do coordenador do acampamento, do presidente da Associação dos Acampados, de uma tesoureira, há um secretario do meio ambiente. Por que a atenção especial ao meio ambiente?

Uma área da fazenda possui uma mata complexa mais ou menos densa, apresentando uma fauna bastante variada. Devido ao cultivo intensivo do algodão - que exigia quantidades enormes de defensivos agrícolas - e da caça predatória, várias espécies tornaram-se raras e outras foram extintas. Além do mais, dois quilômetros de uma das maiores lagoas da região (a Lagoa Samba de 18 quilômetros de extensão) estão situados nos limites da fazenda reivindicada pelos sem-terra. As matas e as lagoas eram bastantes cobiçada por pescadores e caçadores, sendo que muitos vinham de longe praticar a caça e a pesca predatória. Os cuidados dos acampados já surtiram efeito, várias espécies que tinham desaparecido da região estão de volta - a perdiz e o zabelê, por exemplo- , para regojizo do "secretário do meio ambiente" que pretende, assim que forem assentados, procurar o IBAMA para desenvolver projetos de preservação e manejo dos recursos naturais da fazenda.

À semelhança de outros acampamentos, as regras na Fazenda Marrecas são rígidas. Não é permitido que a família fique por muito tempo longe do acampamento, não é permitido bebedeira nem tampouco caçar e pescar fora dos períodos determinados. "Tinha um camarada aqui que só vivia com a espingarda e a capanguinha do lado. Que nada! Fizemo uma reunião e falemos pra ele ir embora". O valor dos acampados é o trabalho e, segundo frisa com ênfase a tesoureira, a união.

No acampamento da Fazenda Marrecas a situação é muito mais precária do que a encontrada em outros acampamentos que visitamos. Não há infra-estrutura e os acampados não contam com rede de apoio material de espécie alguma. Para se ter idéia do isolamento dos sem-terra, basta dizer que a estrada que dá acesso ao acampamento é de chão, ficando intransitável durante o curto período chuvoso da região. Não há posto de saúde e nenhuma farmácia. Não existem escolas e as crianças em idade escolar são enviadas para as casas de parentes e amigos, localizadas nas redondezas. O povoado mais próximo, Canto do Riacho, dista seis quilômetros do acampamento.

Diante das dificuldades, muitas famílias desistiram do movimento, restando apenas 134. Neste ano, os acampados estão cultivando somente 60 hectares. As culturas são: milho, feijão "macaçar", arroz, mamona e gergelim. Cada família tem seu lote e a produção e comercialização, com algumas exceções, são feitas individualmente, mas há um lote que é cultivado coletivamente, o produto é distribuído por todos através da Associação. Aliás, convém salientar que os acampados contribuem mensalmente com um real para os cofres da Associação. Segundo a tesoureira, o recurso é utilizado para pequenas melhorais, tais como: compra de remédios, de arame para fazer a cerca que separa a área de produção da reserva ecológica, para conserto da bomba de água etc.

No primeiro ano, os sem-terra cultivaram 600 hectares e obtiveram safra recorde de feijão, mas como o produto não teve preço perderam dinheiro e ficaram desanimados.
Não obstante as dificuldades e a inoperância do INCRA para resolver o problema, os sem-terra da Fazenda Marrecas não perdem a esperança de que o assentamento saia o mais rápido possível. Afinal, como disse um senhor dos mais animados e hospitaleiros do grupo: "Por que tanta demora? A terra não é da gente mermo?!"


Ely Souza Estrela - Professora da Universidade do Estado da Bahia - Campus de Caetité. Mestre em Geografia Humana (USP) e Doutoranda em História Social (PUC-SP).
Maria Salete Magnoni - Professora da Rede Estadual de Ensino - SP. Mestre e Doutoranda em Literatura Brasileira (USP).
Sueli Castro Gomes - Professora da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP. Mestrando em Geografia Humana (USP).



(1) As informações foram colhidas em visita feita ao acampamento em 11 de janeiro de 2001.
 
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