Universidade de São Paulo Faculdade de Engenharia de Sorocaba Banco Credibel S/A
 
Sobre o Labi Arte e Imagem Contato Agenda Cidadania e Movimentos Sociais Links Artigos e Publicações
Artigos e Publicações

Islamísmo, Imigrantes e Estado: Religião e Política Cultural na Austrália
por Michael Humphrey
(*)



Abstract - Bibliografia

Resumo: Trata-se de mostrar como a história cultural do Islamismo no Ocidente foi moldada pela experiência dos imigrantes muçulmanos das sociedades que os acolheram e em grande parte influenciada pela realidade social do processo de incorporação.

Palavras-chave: islamismo - história islâmica - cultura islâmica - muçulmano

No Ocidente, o islamismo contemporâneo tem sido equiparado ao fundamentalismo, e o islamismo que busca se auto-afirmar encontra-se envolvido num conjunto de imagens e símbolos culturais, internacionalmente identificáveis. O xador, o véu, as mesquitas, os xeques barbudos e as multidões muçulmanas iradas passaram a representar irracionalidade, arcaísmo, repressão, intolerância e violência. A cultura muçulmana é considerada como bizarra e indisciplinada, enquanto a política dos países e movimentos islâmicos radicais é vista como refratária às regras normais da diplomacia internacional. Uma das conseqüências da politização internacional da cultura islâmica está no fato de que a prática e as manifestações individuais de fé e as demonstrações de solidariedade entre as comunidades muçulmanas freqüentemente são tratadas com suspeita. As comunidades de imigrantes muçulmanos nas sociedades ocidentais sofrem de modo muito direto as conseqüências da politização dos símbolos culturais islâmicos. Tende-se a considerar os muçulmanos como inflexíveis diante das exigências do mundo moderno, quer como migrantes quer como nações.

A "questão muçulmana" no Ocidente é parte de uma questão política mais ampla, relativa ao impacto do recrutamento em massa de mão-de-obra proveniente de regiões subdesenvolvidas e de sua incorporação às sociedades ocidentais. Os movimentos políticos racistas e as mudanças nas políticas de imigração nos países ocidentais, controlando rigorosamente os direitos de entrada, trabalho e residência, são o contexto em que emergiram o intenso preconceito e hostilidade contra os imigrantes muçulmanos. Mas, como a imigração freqüentemente é tão importante para os países que fornecem quanto para os que recebem os imigrantes - como mão-de-obra, para os últimos, e como remessa de moeda e válvula de escape contra as pressões do desemprego, para os primeiros -, a política das normas de imigração assumiu dimensões nacionais e internacionais. Por trás dos problemas de política da imigração e do acolhimento dado aos imigrantes estão questões mais amplas sobre o relacionamento entre o mundo desenvolvido e o subdesenvolvido e sobre a inserção desse relacionamento político na cultura transnacional, neste caso, o islamismo.

Este artigo aborda o relacionamento entre a prática religiosa e a marginalização cultural do islamismo no Ocidente, focalizando a organização religiosa e a prática das comunidades de imigrantes muçulmanos na Austrália. Ele interpreta a cultura religiosa do imigrante como uma dimensão do processo de incorporação dos migrantes em culturas de classes. A estratégia teórica empregada deriva-se da análise feita por Pierre Bourdieu do mundo social como um sistema de símbolos e um sistema de relações de poder. Ele defende a tese de que, na migração, o processo de incorporação dos imigrantes estrutura de modo seletivo a reconstituição da cultura religiosa (Bourdieu, 1984).

Para a maior parte dos migrantes muçulmanos, a imigração transforma sua situação de membros de uma cultura majoritária na de participantes de uma cultura minoritária. Mas, no processo de realocação e incorporação, a categoria religiosa está em geral subordinada às divisões étnicas e de classe presentes na organização da vida religiosa do imigrante. Nesse contexto, a religião em geral não atua como uma categoria social ou organizacionalmente coesiva nem como uma hierarquia abrangente. De fato, o caráter da organização religiosa, o tipo de orientação islâmica encontrado nas mesquitas e as hostilidades entre as organizações refletem as diferentes posições sociais e de classe dos imigrantes muçulmanos. Na medida em que se desenvolvem localmente, essas instituições religiosas articulam a experiência social de grupos individuais. Mesmo com o desenvolvimento de instituições islâmicas de caráter nacional, as comunidades das mesquitas locais resistem à pressão para dissolver sua própria base étnica e de classe. A pluralidade histórica da autoridade islâmica - isto é, a ausência de uma igreja - serve apenas para fortalecer a autonomia e independência das comunidades das mesquitas.

Classe e identidade cultural muçulmana na Austrália

Uma história cultural do islamismo no Ocidente deve ser situada no contexto social e cultural em que os imigrantes estão inseridos. Devido ao caráter da imigração australiana, isso envolve principalmente o ajuste dos imigrantes aos ritmos sociais e de trabalho da classe trabalhadora imigrante.

O censo de 1986 revelou que havia cerca de 110 mil muçulmanos na Austrália. Embora sejam provenientes de toda parte do globo, até mesmo do Oriente Médio, do sul da Europa, da África, do Pacífico, do sul, do sudeste, e do leste da Ásia, mais de 80% deles provêm da Turquia e do Líbano. A distribuição dos muçulmanos na Austrália está intensamente concentrada (87%) nos dois estados mais populosos, Vitória e Nova Gales do Sul, o primeiro com cerca de 53% da população muçulmana total no país. A concentração das comunidades muçulmanas em subúrbios operários específicos em Sydney e Melbourne também se assemelha aos padrões de fixação da classe trabalhadora imigrante no Mediterrâneo. A imigração em cadeia exerceu uma forte influência sobre o agrupamento dos imigrantes, acentuando laços familiares, de comunidade e de grupo étnico. Os nomes e endereços das mesquitas e associações islâmicas de serviços voluntários revelam as demarcações étnicas, lingüísticas e de sexo que constituem a identidade cultural e religiosa muçulmana e caracterizam a fixação de residência das comunidades. Dessa forma, os endereços da Associação de Caridade Amal, da Associação Muçulmana Libanesa e da Associação Cultural Islâmica Turca de Mesquitas de Sydney identificam respectivamente as concentrações residenciais dos shi'a, no sul do Líbano, dos sunni, no norte do Líbano, e dos turcos, na região leste da Turquia.

A situação profissional e os níveis de desemprego também são indicadores da posição de classe dos imigrantes muçulmanos. Da mesma forma que a maioria dos membros da classe trabalhadora imigrante no Mediterrâneo, os muçulmanos de quase todas as comunidades libanesas e turcas estão empregados na indústria, na construção civil e no comércio varejista. Embora a proporção varie, a população libanesa e turca tem em média duas vezes mais probabilidade que a população nascida na Austrália de estar ocupando empregos na indústria. Entre os que chegaram mais recentemente, a parcela dos que estão empregados em atividades não-especializadas é até mesmo mais alta. Um estudo revelou que entre 1972 e 1983 em média 35,2% de libaneses (cristãos e muçulmanos) estavam empregados na indústria, e entre os libaneses que chegaram mais recentemente esse número atingia 47,2%. Um estudo detalhado sobre o emprego e desemprego entre os libaneses de Sydney em 1984 revelou que 75% dos muçulmanos libaneses sunni do sexo masculino empregados na Austrália estavam concentrados em trabalhos não-especializados, contra 53% dos shi'a, 52% dos ortodoxos de Antioquia e 45% dos católicos maronitas (Humphrey, 1984b). As taxas de desemprego entre os australianos nascidos no Líbano e na Turquia têm sido persistentemente altas, entre 30 e 35%, desde o início da década de 1980, quando a média nacional variou entre 6 e 8% (Young, Petty e Faulkner, 1980; Mackie, 1983; Humphrey, 1984b).

Wolf defende a tese de que "a posição do migrante e determinada não tanto pelo migrante ou sua cultura quanto pela estrutura da situação em que ele se encontra" (Wolf, 1982: 363). Para a maior parte dos imigrantes muçulmanos na Austrália, sua incorporação à classe trabalhadora imigrante das duas principais cidades industriais, Sydney e Melbourne, domina sua experiência individual e social. Nesse contexto, o capital social e cultural derivado de outras sociedades e posições sociais tem valor limitado, exceto na formação das novas culturas locais. Os laços familiares, de patronagem, de comunidade e com a mesquita são eclipsados pelas características mais básicas de educação, qualificações, habilidades, domínio do idioma inglês, na obtenção de bons empregos e na mobilidade social no interior da sociedade australiana. Até mesmo os imigrantes muçulmanos da classe média freqüentemente verificam que o domínio precário do inglês e a ausência de qualificações restringem seriamente suas possibilidades de acesso a uma posição de classe e estilo de vida equivalentes. O caráter seletivo do reconhecimento oficial da cultura alheia - por exemplo, o treinamento e a qualificação profissionais - reflete os laços históricos e institucionais entre a Austrália e os outros países (Mitchell, Tait e Castles, 1990). Dessa forma, para a classe trabalhadora imigrante, as escolhas básicas de consumo, habitação, subúrbio de residência, a qualidade da educação e o caráter da cultura do jovem são em grande parte determinados por fatores que fogem a seu controle e estão fora do domínio da organização familiar ou da comunidade.

O capital social e cultural "de um outro lugar" constitui o núcleo de uma nova cultura local, baseada em vínculos sociais e de afiliação religiosa(1). O processo de reconstrução da cultura, no entanto, é necessariamente seletivo. O próprio ato de imigração dá início a um reforço seletivo de práticas sociais e culturais. A lei de imigração determina os vínculos de parentesco (consanguíneo e por afinidade) que se consideram mais importantes entre os requisitos para a "reunião da família". Desse modo, os procedimentos de seleção usados pelo governo determinam profundamente o caráter futuro da família imigrante e dos laços na comunidade, muitas vezes com mais eficácia que as preferências tradicionais de casamento, que a lei islâmica ou que os padrões de obrigações decorrentes de laços de parentesco. Os laços familiares sancionados pelo governo são por sua vez reforçados pela experiência da fixação de residência, quando os laços familiares adquirem valor como recursos para a provisão das necessidades básicas de moradia, serviços e emprego, que são canalizadas através de redes comunitárias geradas, elas próprias, pelo processo de seleção e fixação de residência. As comunidades étnicas há muito vêm sendo consideradas como as provedoras iniciais de assistência por ocasião da fixação de residência.

Se, de um lado, a experiência inicial de fixação de residência dos imigrantes reforça seletivamente os laços sociais, de outro, a experiência de incorporação à classe trabalhadora étnica modela o desenvolvimento potencial do capital social e cultural, e dessa forma a trajetória social dos migrantes. Isso pode ser um fator bastante determinante em termos do tipo de emprego a que eles têm acesso e das atividades sociais e tempo de lazer que o emprego permite. Como assinala Bourdieu em sua análise da cultura da classe trabalhadora, o tempo disponível para o migrante adquirir um novo capital social e cultural ou fazer uso do antigo é fortemente influenciado pelas condições e exigências do trabalho (Bourdieu, 1984). As horas de trabalho (por exemplo, trabalho em turnos alternados, longas jornadas de trabalho impostas pelo emprego em lojas), o local de trabalho (por exemplo, em fábricas, escritórios, táxis), o trabalho em mais de um emprego, o isolamento social devido ao ruído e/ou à tarefa executada, as oportunidades de interação no emprego com outros trabalhadores da mesma ou de outra origem social ou étnica, as oportunidades de se expressar no idioma inglês, e o exercício do trabalho em integração com membros de uma comunidade mais ampla ou apenas como os membros de sua própria comunidade ou família - todos esses fatores influenciam a relevância do capital social e cultural do migrante e o potencial para transformá-lo. A identidade cultural forma-se no contexto das possibilidades de vida, contexto que é fortemente influenciado pela experiência cotidiana de isolamento ou de interação com culturas de classe mais amplas.

Próxima PáginaUltima Página


(*) Chefe do Departamento de Sociologia, Cultura e Comunicação da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, Austrália.

(1) Suad Joseph discute a importância da família libanesa no contexto das convulsões sociais e políticas em Beirute, bem como seu papel fundamental como garantia de segurança e solidariedade (Joseph, 1982).

 
  Indicar esta página a um amigo

Artigos e Publicações | Links | Cidadanias e Movimentos Sociais | Arte e Imagem | Sobre o Labi
Agenda | Contato | Últimas Novidades | Banco de Dados NIME/LABI