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Artigos
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Catarina Come-Gente por Sandra Jatahy Pesavento(*) |
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Resumo:
O
presente trabalho analisa um fato ocorrido em Porto Alegre, no
ano de 1864. O açougueiro José Ramos os e sua mulher,
Catarina Palse, foram presos pela polícia como autores de vários
crimes de assassinato e acusados de fabricar lingüiça com
a carne das vítimas, lingüiças estas que eram vendidas
eu seu estabelecimento e que tinham muita aceitação
no mercado. Palavras-chave:
história - cultura popular - imaginário social
- representação feminina Nosso
texto trabalha sobre a história de um crime, talvez o crime mais
famoso que já tenha ocorrido no sul do Brasil, na cidade de Porto
Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul. Corria
o ano de 1864, e a então pacata cidade de Porto Alegre devia ter
mais ou menos 40.000 habitantes, contabilizados entre homens livres, libertos
e escravos. Considerando
a população da cidade em 1820 (10.000 a 12.000 habitantes),
por aquela época ela quadruplicara, o que sem dúvida revela
a presença de forte contingente de imigrantes alemães, que
mudaram o aspecto do que até então havia sido um pacato
burgo de base açoriana(1).
Mas, naquela primavera, a placidez da cidade foi sacudida pela revelação
de um hediondo crime: o açougueiro José Ramos e sua mulher,
Catarina Palse, foram presos pela polícia como autores de vários
assassinatos e acusados de fabricar lingüiça com a carne das
vítimas, lingüiças estas que eram vendidas em seu estabelecimento
e tinham muito boa aceitação no mercado! O
incidente macabro, digno de um conto de Edgar Allan Poe ou de um romance
policial de Conan Doyle, ficou conhecido como "o caso da lingüiça",
tendo gerado um longo processo criminal sobre o fato. Hoje, passado mais
de um século, o crime das "lingüiças de carne de gente"
é volta e meia relembrado pelos mais antigos, revelando que o incidente
ficou perpetuado na memória popular da cidade. A
curiosa história, que bem poderia ter inspirado os diretores do
filme Delikatessen, que resgata a temática do sinistro açougueiro
que traficava carne humana, ou mesmo o filme mais antigo de um Monsieur
Verdoux, nos interessa particularmente em função de
uma das personagens envolvidas. Trata-se da figura feminina da história,
cúmplice do açougueiro assassino. Sem dúvida, ela
não foi o elemento central do episódio nem a principal acusada,
mas a leitura do volumoso processo criminal, as breves notícias
sobre a sua pessoa nos jornais da época e os comentários
carregados de juízos de valor sobre a quase lendária Catarina,
trazidos pelas crônicas escritas anos depois, nos permitem tecer
algumas considerações sobre a figura da mulher nas cidades
do século XIX. Preferimos
começar nossa reflexão sobre uma das representações
construídas sobre a mulher, a qual já é bastante
antiga. De certa forma, Michelet é um dos precursores no resgate
desta dimensão do imaginaria social construído sobre a mulher.
Na sua conhecida obra La Sorcière, Michelet indica que foi
a Natureza que fez da mulher a feiticeira. Sem querer cair na questão
levantada pelo autor, que opõe a "mulher-natureza" ao "homem-cultura",
pretendemos afirmar que o que se poderia chamar "a natureza feminina"
é também uma construção simbólica,
fruto de uma representação atribuída e dada pelo
olhar dos homens sobre as mulheres (Michelet, 1966). Com propriedade,
Jacques Le Goff afirma que Michelet enfoca bem a questão quando
centraliza sua análise num aparente paradoxo: é justamente
no momento em que a mulher emerge como uma personagem de maior presença
na história que é preciso diabolizá-la. É
este o momento, na passagem do século XIV para o século
XV, em que se acentua a sua faceta de bruxa, de sexualidade desregrada,
dotada de malícia, capaz de realizar sortilégios e malefícios.
Mais do que isto: esta representação feminina trabalha com
a idéia de que a mulher é perigosa, por ser capaz de trair
e seduzir (Le Goff, 1986: 10-1). A
figura arquetípica de Eva vem à baila (Duby e Perrot, 1992:
83), não como a mãe de todos os homens, mas como aquela
que não soube resistir à serpente e foi capaz de arrastar
Adão ao pecado, o que redundou na expulsão do paraíso,
para sempre perdido... Ou talvez devêssemos remontar a Lilith, a
anti-Eva de uma outra versão judaica da Bíblia, o Zohar.
Expulsa do paraíso por má conduta - sua não submissão
ao poder masculino de Adão -, foi condenada a errar no mundo às
trevas, tornando-se amante de Satã (Mervin e Prunhuber, 1987: 12).
Metáfora da mulher livre e poderosa, ela é a personificação
da capacidade sedutora da mulher, consciente dos seus atributos e podendo
ameaçar a ordem estabelecida. Neste sentido, Lilith é praticamente
varrida do texto bíblico oficial. Por um outro prisma, podíamos
agregar a esta versão ou antiimagem da mulher algumas outras características
associadas ao seu temperamento ou natureza, como, por exemplo, a incapacidade
de guardar segredos ou a eterna curiosidade feminina, alegorizada na figura
mitológica de Pandora... O
certo é que tais representações são trazidas
como uma "decorrência natural", como algo próprio da mulher
e de seu temperamento. As identificações sexuais são
fabricadas, como se sabe, a partir de papéis culturais e sociais
historicamente construídos, e as representações,
no caso, induzem o olhar e o julgamento, pautam os comportamentos e normatizam
as práticas. Mas
estamos falando do século XIX, em que mulheres reais assumem papéis
concretos na sociedade burguesa que se estrutura, mesmo que isto se configure
como um simulacro nas franjas do mundo capitalista de então, como
é o caso do extremo meridional do Brasil. Sem dúvida que,
diante do "perigo feminino", a sociedade patriarcal que se aburguesa,
para salvaguardar-se, é capaz de fabricar imagens consensuais da
mulher ideal, dedicada ao lar, mesmo que a realidade da vida urbana registre
a sua presença nas ruas e nos trabalhos mais diversos, como nas
fábricas nascentes. À distinção sexual se
acrescentam as variáveis da classe e da etnia, que negam na prática
o estereótipo desejado. Todavia, a força dominadora do simbólico
induz à consolidação de uma estrutura de poder que
vê a representação da mulher-feiticeira como o estereótipo
a ser estigmatizado. Se dominada a sua "natureza" pela "cultura", é
possível coibir o comportamento indesejável e obter o controle
social. Mas
voltemos ao "crime da lingüiça", à concretude da trama
histórica que indignou a população da tranqüila
Porto Alegre. Segundo
os autos do processo, os acontecimentos teriam se dado na região
que se convencionava chamar de "Cidade Baixa", que começava na
parte noroeste da colina onde se situava a "Cidade Alta", na sua descida
em direção à Praia do Riacho. A designação
da área continha em seu nome não apenas a referência
topográfica original - terras baixas, que se espraiavam em direção
ao rio Guaíba -, mas também a condição social
de seus moradores, que não possuíam recursos para morar
nos sobrados da "Cidade Alta". Entretanto, era uma região próxima
ao centro da cidade e nela havia a Rua do Arvoredo, que tinha este nome
pela vegetação abundante que ostentava em princípios
do século, quase suplantando as casas existentes... Pois bem, foi
nesta Rua do Arvoredo que os sinistros acontecimentos teriam tido lugar.
O fator desencadeador da suspeita foi o desaparecimento de um morador
da Rua da Varzinha, outra das ruas habitadas por gente humilde, que cruzava
com a do Arvoredo no caminho da Praia do Riacho. Januário Barbosa,
proprietário de uma taverna na Rua da Varzinha, desaparecera misteriosamente,
mas fora visto pela última vez, no entanto, no açougue de
José Ramos, na Rua do Arvoredo. A porta deste açougue, permanecia
com insistência o cachorro de propriedade do desaparecido, alertando
a vizinhança pelos longos uivos que dava ("Excavações",
1924: 97). Neste
ponto, as narrativas divergem. Segundo outras fontes, o cachorrinho pertencia
ao caixeiro da taverna, o menor José Inácio de Souza Ávila,
o segundo a desaparecer misteriosamente (Porto Alegre, 1940: 184), ficando
mais uma vez o animal a latir na porta. Ainda segundo outra versão
dos fatos, cachorro e caixeiro somem da cena, e o desaparecido em questão
é o português Joaquim Martins, homem de posses, estabelecido
com um armazém de secos e molhados na Rua da Igreja, esquina com
a Rua do Rosário (Coruja Filho, 1962: 97). Abandonando
as versões constituídas ex-post ao fato, recorremos
ao processo criminal, que narra ter sido a polícia alertada para
os desaparecimentos e procedido a uma busca na casa do açougueiro.
Para horror geral, foram descobertos no pavimento inferior da casa, numa
cova a poucos palmos do chão, ossos humanos e um cadáver
em avançado estado de putrefação. Os macabros achados
do porão da residência não eram os das vítimas
procuradas, as quais foram encontradas, partidas em pedaços e mutiladas,
num poço existente no quintal da casa. E, para completar o horror,
segundo o "auto de exumação e de busca", junto a eles foi
achado morto o pequeno cão que, com seus uivos, despertara a suspeita
dos crimes...(2). Procedidas
as diligências criminais, o cadáver do porão foi identificado
corno de Claussner, o antigo proprietário do açougue de
José Ramos, e, espalhados pela casa, vários objetos de uso
pessoal dos desaparecidos, dinheiro e denunciadoras manchas de sangue. É nesse momento que se começa a falar na figura feminina do crime. Como provavelmente se diria na França, cherchez la femme... Próxima Página • Ultima Página (*)
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