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Artigos
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Huxley Sobe o Morro e Desce ao Inferno A Umbanda no Discurso Católico dos Anos 50 por Artur Cesar Isaia(*) |
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Resumo:
A partir da idéia de progresso, encarada como importante formação
discursiva presente nos anos 50, tanto na imprensa católica, quanto
na laica, o texto explora as reações diante da visibilidade
conquistada pela umbanda no Brasil. Um cruzamento de saberes, ratificado
pela Igreja, remetia a umbanda para os subterrâneos sociais, tentando
desqualificá-la socialmente, aproximando-a da superstição,
da miséria e do atraso. Palavras-chave:
umbanda - catolicismo - imaginário religioso
Quando, em 1958, Aldous Huxley visitou o Brasil, ocorreu um fato emblemático,
capaz de ilustrar as transformações históricas pelas
quais passava o campo religioso brasileiro. Levado a visitar as manifestações
religiosas abrigadas no morro do Salgueiro, o escritor conheceu as práticas
mediúnicas e os rituais familiares ao cotidiano de seus habitantes(1). A
reação manifestada por uma parte da imprensa brasileira
evidenciou claramente o estranhamento da elite diante de uma realidade
completamente distante da miragem de progresso que a seduzia. Essa reação
conjugava-se com a campanha promovida pela Igreja Católica contra
a proliferação da umbanda no Brasil (a campanha tinha como
alvo todas as formas de práticas mediúnicas existentes,
das mais elitizadas e intelectualizadas, como as do espiritismo kardecista,
às mais populares, como as manifestações religiosas
de matriz africana). O
tema do progresso aparece nesse momento como importante formação
discursiva, em torno da qual gravitam significados elaborados por diferentes
saberes(2). Em inúmeras
falas detectadas no período, a idéia da afirmação
do progresso sobre a realidade brasileira aparecia de forma reincidente.
A elite recorria a uma noção redentora do progresso, capaz
de afirmar-se no país a despeito de um povo inculto, doente, supersticioso.
Se o brasileiro era visto como despreparado e imaturo para o pleno exercício
da cidadania, ratificava-se o papel messiânico da elite(3).
Esta, tecendo a imagem de um "outro" totalmente carente de sua ação,
afirmava suas significações com um conteúdo magisterial
e redentor(4). O
Estado de S. Paulo, por exemplo, comentando a visita de Huxley ao
morro do Salgueiro descreve com imagens carregadas de horror o cenário
que recebeu o escritor. O local onde transcorreu a cerimônia religiosa
presenciada por Huxley aparece como um "repugnante antro", em que seres
totalmente carentes de educação "chafurdavam" em uma "subumanidade".
Os sinais externos do culto eram apresentados como signos dessa "subumanidade",
tão distante do encantamento de progresso que marcava o ideário
desenvolvimentista dos anos 1950. Essa população favelada,
capaz de revelar uma caótica crença, em que se misturavam
"santos católicos, orixás, fetiches africanos e ameríndios,
fotografias de políticos, estampas de Tiradentes, figuras de Buda
e de Zumbi dos Palmares", representava o "anti-Brasil", que deveria ser
integrado à civilização. O universo mítico
dessas populações revelava apenas a sua precariedade existencial,
marcada pela "confusão e descalabro psíquico" ("Huxley",
1958: 3; "Mixter Huxley", 1958). Essa
atitude, capaz de enxergar a religiosidade vivida pelas camadas pobres
como desvio, patologia, incultura, ou seja, como um valor simétrico
à civilização e ao progresso, fica evidente em diferentes
momentos. João do Rio, por exemplo, já na virada do século,
descrevia as práticas do que denominava "baixo espiritismo", em
que pobreza, analfabetismo, doença e superstição
revelavam o outro lado do progresso da capital federal (Rio, 1976: 165). João
do Rio descreve essas reinvenções das práticas mediúnicas
vivenciadas pelas populações da periferia da capital, acentuando
o bizarro, o patológico, o miserável. O meio no qual esse
"baixo espiritismo" acontecia aparecia como paupérrimo, insalubre,
mal iluminado, freqüentado pela escória social, mulheres desgrenhadas,
mulatinhas bamboleantes, negras de lenço na cabeça com o
olhar alcoólico, homens de calças abombachadas..." (id.,
ibid.). O olhar do autor revela, na descrição
dessas práticas, a ambigüidade do progresso vivido pelo Rio
de Janeiro na virada do século. Ao lado do automóvel, do
cinematógrafo, das reformas urbanísticas, da racionalidade
e da ciência, a capital revelava um lado sombrio, que convivia com
degradação moral, superstição, miséria,
patologias, vícios. A expressão usada por João do
Rio para qualificar essas práticas é muito sintomática.
Se o espiritismo codificado por Allan Kardec insistia em seu caráter
científico (até mesmo experimental em seus primórdios),
como o avesso da superstição, as práticas mediúnicas
vivenciadas por criaturas analfabetas, alheias à cidadania, acenavam
para o rasteiro, vulgar, baixo. Portanto, não passível de
confundir-se com o espiritismo codificado por Kardec. Tanto
João do Rio quanto O Estado de S. Paulo, em dois momentos
diferentes, ratificavam a suspeição ao universo simbólico
das camadas pobres, visto como a antítese da civilização
e do progresso, representação endossada pela Igreja Católica
no Brasil. O discurso católico há muito insistia na sua identificação com o ser brasileiro. Através de inúmeros pronunciamentos, a hierarquia tecia a imagem de um Brasil histórica e providencialmente católico. Um exemplo disso pode-se ler na Pastoral Coletiva dos Bispos Brasileiros, vinda a público por ocasião das festas do centenário da Independência do Brasil. Nesse documento os bispos construíam uma representação da nação brasileira, em que a Igreja passava a ser não apenas o marco fundador, mas a presença verdadeiramente civilizadora. A primeira missa é vista como o ponto alfa da história do Brasil, como o rito fundador da nacionalidade: "Qual pavilhão protetor no solo ainda virgem, do Brasil, ergueu-se a mandado de Pedro Alvarez Cabral, em Porto Seguro, majestosa cruz... Ei-lo o descobridor do Brasil, levantando para perpétua memória de posse divina o glorioso padrão que, há vinte séculos, marca as conquistas do Filho de Deus" ("Carta", 1922). Próxima Página • Última Página (*)
Pós-graduação em História, Universidade Federal
de Santa Catarina. |
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