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Artigos
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As Felizes Culpas do Ocidente(*) por Dario Sabbatucci(**) |
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As
penas do pavão Por
volta do fim do século passado circulava entre os Cherokees o seguinte
conto(1): "Há
muito tempo um guerreiro que gostava de vagar foi em direção
ao oriente às estâncias dos brancos, onde viu pela primeira
vez um pavão. As
suas belíssimas longas penas o impressionaram... conseguiu comprar
algumas delas e as trouxe consigo para as montanhas, escondendo-as - na
espera de usá-las - na toca de um velho castor perto da beira do
rio... Depois pôs-se a trabalhar escondido e fez para si um cocar,
com as penas longas e retas na frente e caindo pelas costas, e as mais
curtas dos lados. Por ocasião da primeira dança colocou
o novo cocar, declarando ter estado no céu, e dizendo que as suas
penas eram de estrelas. Depois fez um longo discurso, asseverando que
aquilo era uma mensagem que ele tinha recebido dos espíritos das
estrelas para comunicá-la aos homens... Todos admiraram as magníficas
penas... e ninguém pôs em dúvida que ele tivesse estado
no céu e tivesse falado com os espíritos. Assim se fez passar
por um grande profeta...". Os
novos atualíssimos "profetas" ou expoentes das ideologias indigenistas
que circulam entre os índios da América Setentrional(2),
eles também, atingiram às estâncias dos brancos. Não
discuto as qualidades ou as verdades das suas mensagens, como não
se discute isso no conto Cherokee, onde se estigmatiza o "falso profeta"
sem, por outro lado, fazer a mínima referência ao conteúdo
do "longo discurso" ou à "mensagem" que ele dizia Ter recebido
dos espíritos das estrelas. Ao contrário, discuto a autenticidade
indígena ou não-ocidental de quanto essas pessoas estão
predicando, assim como no conto cherokee - que termina com o desmascaramento
do falso profeta - vem demistificada a autenticidade celeste ou estelar
das penas das quais tirava autoridade. Não
queria ser mal interpretado por uma referência inconsciente à
fábula do corvo que se faz bonito com as penas do pavão,
que bem poderia ter atingido o narrador Cherokee. De fato, não
digo: estes novos "profetas" se fazem bonitos com as penas de Marcuse
(ou alguém em seu lugar). Mas digo: estes novos "profetas" não
estão fora da cultura ocidental; fazem parte dela como dela faz
parte Marcuse ou Adorno ou a contestação de 68 etc ... ;
e não é por casualidade que uma franja desta contestação
tenha assumido a denominação de índios Metropolitanos,
atestando, através da reciprocidade, a equiparação
de que estamos falando. Em
substância, a eventual inautenticidade (ou mistificação)
da mensagem dos profetas neo-índios está toda contida no
fato de que ela aparentemente propõe a restauração
de um sistema indígena (anocidental se não antiocidental),
mas que na realidade se insere perfeitamente naquele sistema de valores
que chamamos cultura ocidental. Este é um juízo de ordem
histórica. Tem, com certeza, aqueles limites que as pessoas que
pontificam em nível ético-filosófico (ou ideológico,
igualmente totalizante) não deixam de salientar em cada tentativa
de historicização. Mas abre também perspectivas inalcançáveis
por outra via; perspectivas tais que permitem a superação
própria das estreitezas ideológicas ou ético-filosóficas. E
pelo que diz respeito à dúvida da autenticidade e o incômodo
da mistificação, que nos é dado entender no breve
conto do falso profeta, dizemos logo que não os reduzimos à
"moral da fábula" de presumível valor universal, mas os
assumimos como testemunhas de uma específica experiência
histórica dos Cherokees, que por um longo arco de tempo tentaram
existir ornando-se de mais de uma pena do vestuário cultural dos
brancos, visto que a luta armada contra o invasor não oferecia
mais a eles uma garantia de existência. Os Cherokees confinados
nas montanhas nos confins entre Georgia, Tennessee e Carolina, por volta
do fim do século XVIII, começaram a se organizar de forma
européia: elaboraram uma escritura própria, deram-se leis
escritas, tiveram um parlamento e até um jornal (o Cherokee
Phoenix), além de, naturalmente, escolas, casas, fazendas,
pequenas indústrias etc. (Cerulli, 1977: 88 e ss.; cf. também
Bleeker, 1952); a ilusão de um estado nacional Cherokee permaneceu
até o início do nosso século. As
ilusões de hoje são formalmente diferentes, como diferentes
são as novas "penas dos brancos" adotadas pelos novos expoentes
da cultura indigenista: marxismo (ou paramarxismo: o marxismo reinterpretado
pela Escola de Frankfurt e propagado pelos EUA), contestação
global, ecologia etc.; todos made in USA, como os mesmos índios. Porque
é este o ponto: a América, nesta fase de seu indiscutível
domínio cultural, tem presenteado à Europa (e ao mundo)
duas coisas: o modelo a ser contestado e o modelo da contestação. Este
duplo presente corresponde à dupla imagem da América que
circula atualmente entre nós: a América ruim (imperialista,
consumiste, poluidora etc.) e a outra América. Da "outra
América" fazem parte, justamente, os bons índios, bons como
Marcuse, como os ecologistas, como os estudantes de 68 etc. Assim, acontece
que os europeus, incomodados com o predomínio cultural americano,
contestam a América adotando um estilo americano de contestação;
contestam em blue-jeans; americanizam-se para contestar o americanismo. Afinal,
a gente se americaniza mesmo "indianizando-se", mesmo adotando as teses
antiamericanas dos índios da América Setentrional. São,
sempre, teses made in USA. Não me refiro, naturalmente,
ao lugar geográfico Estados Unidos, mas ao lugar cultural Estados
Unidos, como última e dominante expressão da civilização
ocidental. Explico-me melhor com o testemunho dos fatos. É um fato que, em nível universal (que é pois aquele ético-filosófico), o caso dos movimentos indígenas norte-americanos venha des-historificado a ponto de a ONU incluí-lo no próprio programa decenal (1973-1982) de "Ação pelo Combate ao Racismo e à Discriminação Racial". É um fato que, no âmbito desta "Ação", teve lugar em setembro do ano passado, no Palácio das Nações Unidas em Genebra, a Assembléia Internacional das Organizações Não-Governamentais, com a participação de 70 delegações que discutiram os seguintes temas: direitos territoriais dos povos indígenas; a filosofia indígena e a terra; as multinacionais e seu efeito sobre os recursos e o território dos povos indígenas; efeitos da fabricação de armas nucleares sobre o território e a vida dos povos indígenas. Tudo, então, parece mover-se em nível planetário, ou humanitário, sem a marca de fábrica dos Estados Unidos. Mas não. Porque é também um fato que a primeira Assembléia Internacional das Organizações Não-Governamentais, que aconteceu em 1977, foi efetuada por movimentos indigenistas americanos e concluída com a decisão de declarar o 12 de outubro (o aniversário da descoberta da América) como "dia internacional de solidariedade aos povos indígenas da América". Próxima Página • Última Página (*)
Artigo publicado em L'Emblema e la Storia, organização
de Adriano Santiemma, ed. La Goliardica, Roma, 1983. Tradução
de Adone Agnolin. |
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