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Resenha: O Conto de Morte Kaiowá
por Maria de Lourdes Beldi de Alcântara
(*)


Título: O Conto de Morte Kaiowá
Autor: José Carlos Sebe Bom Meihy
Edição: São Paulo, Edições Loyola, 1991

Resenhado por: Maria de Lourdes Beldi de Alcântara

 

Uma clássica discussão em história oral: quem é o autor? Seria o autor aquele que dá o depoimento e depois o legitima ou, contrariamente, o autor seria quem pensou o projeto, mobilizou as forças capazes de dar vida à proposta inicial e depois textualizou a entrevista?

O fluir do tempo tem garantido que o responsável pelo texto é quem o textualiza, isso como resultado da elaboração do processo criativo em que deixa de funcionar como mediador.

O refazer cuidadoso dos textos sugere que o processo de 'fabricação' da versão final seja uma 'transcriação' (Meihy, 1991:32).

A temática deste livro é o suicídio dos índios kaiowá, e tem como instrumento de análise a discussão da história oral baseada em depoimentos recolhidos no local de pesquisa. Isto se apresenta, para nós antropólogos, como uma das etapas da reconstrução da vida cotidiana que, juntamente com a observação participante e a descrição densa, constitui-se na tentativa de podermos entender qualquer tipo de manifestação cultural. Isto é tão velho, quanto a fundação do campo da antropologia, o "outro", "a diversidade cultural", são objetos que fundam o campo. Portanto, o autor parece estar descobrindo, via história, as velhas questões antropológicas e, juntamente com ela, os seus questionamentos.

O antropólogo chega a entender inteiramente o "outro"? O antropólogo recria a realidade estudada? Como ser fiel a esta realidade?

Clifford Geertz, em sua tão relembrada e enaltecida Antropologia Interpretativa, baseada na descrição densa, tenta dar as repostas para questões que afligem os antropólogos e, consequentemente, colocam em cheque suas teorias. O resultado destes questionamentos foi o surgimento da Antropologia chamada pós-moderna, que se pauta na busca de ser o mais fiel possível na interpretação da cultura do "outro". Na busca de aproximar-se ao máximo da realidade deste, esta tentativa é respondida, por um lado, inserindo o antropólogo na posição de mero coletador e transcritor de dados, sem que este faça qualquer análise, pois qualquer ato de interpretação interferiria e, consequentemente, alteraria a realidade. Por outro lado, está aposição deste cientista em assumir que realmente recria a realidade, reconhecendo que ele nunca poderá incorporar totalmente a alteridade e, portanto, nunca poderá ser, sentir e conceber o universo cosmogônico como o "outro". Neste momento, o antropólogo, toma-se autor.

José Carlos Sebe assume que recria as entrevistas, à medida que textualiza os depoimentos, criando assim a transcriação. Direciona e reconstrói os depoimentos na tentativa de alertar, tanto a sociedade científica quanto o leitor comum, a causa dos suicídios dos jovens Kaiowá, na Reserva de Dourados, Mato Grosso do Sul.

O seu livro é caracterizado por um apelo altamente ideológico, uma vez que tenta dar "voz aos vencidos" redefinindo a história "enquanto mediadora da reflexão de um problema nacional, de expansão contemporânea, se propondo a interferir na transformação social" (Meihy, 1991:17).

Notamos que o autor, através da "transcriação" baseada nas narrativas que, por si só, é definida como um texto referencial com temporalidade representada (Ducrot e Todorov, 1988:268) -, toma uma posição notadamente política e, neste particular, uma postura extremamente paternalista e por muitas vezes ingênua, no que diz respeito à pesquisa de campo: "Chegar à casa do capitão foi em si uma viagem cultural e outra de emoções. Interessante: a pobreza e a injustiça materializadas nos parcos pertences do chefe... Cuidado nosso conforto, sentados no terreiro da modestíssima casa... (Meihy, 1991:18).

No entanto, para nós antropólogos, o livro possui um valor extraordinário, pois apresenta-se como um material bruto com entrevistas ricas em detalhes, que são de extrema valia para qualquer análise que for feita em relação à Reserva de Dourados.

Referências Bibliográficas

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Canto de Morte Kaiowá. São Paulo, Editora Loyola, 1991.

DUCROT, Oswalde TODOROV, Tzvetan. Dicionário Enciclopédico das Ciências da Linguagem. São Paulo, Editora Perspectiva, 1988.

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(*) Maria de Lourdes Beldi de Alcântara. Mestre em Antropologia e Doutoranda em Sociologia-USP.

 
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