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Resenha: O Conto de Morte Kaiowá por Maria de Lourdes Beldi de Alcântara (*) |
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Título:
O Conto de Morte Kaiowá Resenhado
por: Maria de Lourdes Beldi de Alcântara
Uma
clássica discussão em história oral: quem é
o autor? Seria o autor aquele que dá o depoimento e depois
o legitima ou, contrariamente, o autor seria quem pensou o projeto,
mobilizou as forças capazes de dar vida à proposta inicial
e depois textualizou a entrevista? O
fluir do tempo tem garantido que o responsável pelo texto é
quem o textualiza, isso como resultado da elaboração
do processo criativo em que deixa de funcionar como mediador. O
refazer cuidadoso dos textos sugere que o processo de 'fabricação'
da versão final seja uma 'transcriação'
(Meihy, 1991:32). A
temática deste livro é o suicídio dos índios
kaiowá, e tem como instrumento de análise a discussão
da história oral baseada em depoimentos recolhidos no local de
pesquisa. Isto se apresenta, para nós antropólogos, como
uma das etapas da reconstrução da vida cotidiana que,
juntamente com a observação participante e a descrição
densa, constitui-se na tentativa de podermos entender qualquer tipo
de manifestação cultural. Isto é tão velho,
quanto a fundação do campo da antropologia, o "outro",
"a diversidade cultural", são objetos que fundam o campo. Portanto,
o autor parece estar descobrindo, via história, as velhas questões
antropológicas e, juntamente com ela, os seus questionamentos. O
antropólogo chega a entender inteiramente o "outro"? O antropólogo
recria a realidade estudada? Como ser fiel a esta realidade? Clifford
Geertz, em sua tão relembrada e enaltecida Antropologia
Interpretativa, baseada na descrição densa, tenta
dar as repostas para questões que afligem os antropólogos
e, consequentemente, colocam em cheque suas teorias. O resultado destes
questionamentos foi o surgimento da Antropologia chamada pós-moderna,
que se pauta na busca de ser o mais fiel possível na interpretação
da cultura do "outro". Na busca de aproximar-se ao máximo da
realidade deste, esta tentativa é respondida, por um lado, inserindo
o antropólogo na posição de mero coletador e transcritor
de dados, sem que este faça qualquer análise, pois qualquer
ato de interpretação interferiria e, consequentemente,
alteraria a realidade. Por outro lado, está aposição
deste cientista em assumir que realmente recria a realidade, reconhecendo
que ele nunca poderá incorporar totalmente a alteridade e, portanto,
nunca poderá ser, sentir e conceber o universo cosmogônico
como o "outro". Neste momento, o antropólogo, toma-se autor. José
Carlos Sebe assume que recria as entrevistas, à medida que textualiza
os depoimentos, criando assim a transcriação. Direciona
e reconstrói os depoimentos na tentativa de alertar, tanto a
sociedade científica quanto o leitor comum, a causa dos suicídios
dos jovens Kaiowá, na Reserva de Dourados, Mato Grosso do Sul. O
seu livro é caracterizado por um apelo altamente ideológico,
uma vez que tenta dar "voz aos vencidos" redefinindo a história
"enquanto mediadora da reflexão de um problema nacional, de expansão
contemporânea, se propondo a interferir na transformação
social" (Meihy, 1991:17). Notamos
que o autor, através da "transcriação" baseada
nas narrativas que, por si só, é definida como um texto
referencial com temporalidade representada (Ducrot e Todorov, 1988:268)
-, toma uma posição notadamente política e, neste
particular, uma postura extremamente paternalista e por muitas vezes
ingênua, no que diz respeito à pesquisa de campo: "Chegar
à casa do capitão foi em si uma viagem cultural e outra
de emoções. Interessante: a pobreza e a injustiça
materializadas nos parcos pertences do chefe... Cuidado nosso conforto,
sentados no terreiro da modestíssima casa... (Meihy, 1991:18). No
entanto, para nós antropólogos, o livro possui um valor
extraordinário, pois apresenta-se como um material bruto com
entrevistas ricas em detalhes, que são de extrema valia para
qualquer análise que for feita em relação à
Reserva de Dourados. Referências
Bibliográficas MEIHY,
José Carlos Sebe Bom. Canto de Morte Kaiowá. São
Paulo, Editora Loyola, 1991. DUCROT,
Oswalde TODOROV, Tzvetan. Dicionário Enciclopédico
das Ciências da Linguagem. São Paulo, Editora Perspectiva,
1988. Próxima Resenha • Última Resenha (*) Maria de Lourdes Beldi de Alcântara. Mestre em Antropologia e Doutoranda em Sociologia-USP. |
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