Resumo
Este artigo aborda o processo de formação e desenvolvimento
dos museus históricos do Estado de São Paulo e de seus
acervos. Analisa, neste contexto, o processo de transformação
dos objetos que, deixando sua função útil, assumem
o papel de documento histórico e, finalmente, de patrimônio
público.
Abstract
This article studies the formation and development process of the historical
museums of the State of São Paulo and its archives. Within the
same context, it also analyses the objects transformation process which,
leaving its useful function aside, assume the role of a historical document,
and finally a public estate.
Da
Coleção Particular ao Patrimônio Público
Ao longo de nossa existência, vamos acumulando objetos que participam
de maneira mais ou menos profunda em nossa vida cotidiana e em nossa
história. Alguns transformam-se em objetos rituais, que acompanham
nossos menores gestos e hábitos mais individuais; outros, ao
contrário, têm uma presença forte, mas pontual em
nossas vidas, documentando passagens, ingressos ou rupturas.
Desse
modo, alguns objetos, por serem os figurantes permanentes ou os acessórios
de cenário de nossa existência, e outros, por guardarem
em si o testemunho de nossas grandes e pequenas façanhas, adquirem
um significado especial, chegando a Ter uma relação tão
íntima conosco que passam a fazer parte de nossa identidade.
São objetos rituais dessa religião única que é
a nossa existência e da constituição de uma identidade
e de uma individuação.
Como
exemplo desses objetos significativos e rituais, lembro-me da imagem
de nossa Senhora Aparecida, que meu pai beijava ao deitar-se e ao acordar.
Nenhum objeto fora alvo de tanta devoção, a não
ser a gaita que ele tocava nos finais de semana. Como esses objetos
rituais que a lembrança me traz, muitos outros inundam as histórias
de vida de cada pessoa: são retratos, adornos, peças de
roupas, objetos de uso pessoal que, de tão próximos, acabam
intercambiando sua natureza com a de seus proprietários, portadores
ou usuários.
"A
casa contém os objetos mais especiais: aqueles que foram selecionados
pela pessoa para acompanhá-la regularmente ou para tê-los
à mão, que permanecem na vida íntima da pessoa
e que, por isso, estão mais ligados ao desenvolvimento da sua
identidade. Os objetos domésticos representam, ao menos potencialmente,
o ser endógeno do possuidor."
(Csikszentmihalyi
e Rochberg, 1981:17).
Pois
bem, esses objetos acabam constituindo tesouros domésticos, individuais
ou familiares. Individuais quando dizem respeito apenas a uma pessoa
e familiares, quando assumem um significado grupal, partilhado pelos
membros da família e parentes mais próximos.
Os
acervos domésticos são compostos de objetos significativos
para a identidade e a memória da família. Alguns podem
ter também um alto valor de mercado, como retratos pintados por
artistas célebres, jóias e mobiliários que, entretanto,
do ponto de vista de seu valor simbólico, não são
mais valiosos do que a certidão de nascimento de um dos membros
da família ou a correspondência do primeiro namorado.
(1)
Socióloga, pesquisadora da Secretaria de Cultura do Estado de
São Paulo.
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