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Objeto, o Colecionador e o Museu

por Maria Cristina Castilho Costa(1)


Resumo

Este artigo aborda o processo de formação e desenvolvimento dos museus históricos do Estado de São Paulo e de seus acervos. Analisa, neste contexto, o processo de transformação dos objetos que, deixando sua função útil, assumem o papel de documento histórico e, finalmente, de patrimônio público.

Abstract

This article studies the formation and development process of the historical museums of the State of São Paulo and its archives. Within the same context, it also analyses the objects transformation process which, leaving its useful function aside, assume the role of a historical document, and finally a public estate.

Da Coleção Particular ao Patrimônio Público


Ao longo de nossa existência, vamos acumulando objetos que participam de maneira mais ou menos profunda em nossa vida cotidiana e em nossa história. Alguns transformam-se em objetos rituais, que acompanham nossos menores gestos e hábitos mais individuais; outros, ao contrário, têm uma presença forte, mas pontual em nossas vidas, documentando passagens, ingressos ou rupturas.

Desse modo, alguns objetos, por serem os figurantes permanentes ou os acessórios de cenário de nossa existência, e outros, por guardarem em si o testemunho de nossas grandes e pequenas façanhas, adquirem um significado especial, chegando a Ter uma relação tão íntima conosco que passam a fazer parte de nossa identidade. São objetos rituais dessa religião única que é a nossa existência e da constituição de uma identidade e de uma individuação.

Como exemplo desses objetos significativos e rituais, lembro-me da imagem de nossa Senhora Aparecida, que meu pai beijava ao deitar-se e ao acordar. Nenhum objeto fora alvo de tanta devoção, a não ser a gaita que ele tocava nos finais de semana. Como esses objetos rituais que a lembrança me traz, muitos outros inundam as histórias de vida de cada pessoa: são retratos, adornos, peças de roupas, objetos de uso pessoal que, de tão próximos, acabam intercambiando sua natureza com a de seus proprietários, portadores ou usuários.

"A casa contém os objetos mais especiais: aqueles que foram selecionados pela pessoa para acompanhá-la regularmente ou para tê-los à mão, que permanecem na vida íntima da pessoa e que, por isso, estão mais ligados ao desenvolvimento da sua identidade. Os objetos domésticos representam, ao menos potencialmente, o ser endógeno do possuidor."

(Csikszentmihalyi e Rochberg, 1981:17).

Pois bem, esses objetos acabam constituindo tesouros domésticos, individuais ou familiares. Individuais quando dizem respeito apenas a uma pessoa e familiares, quando assumem um significado grupal, partilhado pelos membros da família e parentes mais próximos.

Os acervos domésticos são compostos de objetos significativos para a identidade e a memória da família. Alguns podem ter também um alto valor de mercado, como retratos pintados por artistas célebres, jóias e mobiliários que, entretanto, do ponto de vista de seu valor simbólico, não são mais valiosos do que a certidão de nascimento de um dos membros da família ou a correspondência do primeiro namorado.


(1) Socióloga, pesquisadora da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

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