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De magia, tempo e memória
(*)
por Jerusa Pires Ferreira
(**)



De uma aula de Ruy Coelho

... Cada pessoa tem um destino traçado, cada pessoa tem um lugar imutável na cidade de Deus. Ao chegar a esse lugar e realizar-se plenamente, a pessoa não aspira a mais nada. É um Universo estático, baseado em certas concepções que foram aprimoradas na filosofia Tomista, mas isto veio de Platão, de Plotino (de Plotino não posso dizer muita coisa porque uma vez tentei ler algo dele, mas achei chatíssimo e parei). Um dia vou ler Plotino, pois é necessário para entender essa coisa mais fascinante do mundo que é a Idade Média. Plotino, ao que parece, já divergia bastante de Platão, mas nele há uma idéia platônica: a de que no fundo de um Universo estático há uma aventura em que o indivíduo busca o seu destino e aí está o problema. Há um momento em que Dante interroga várias personagens sobre o mistério da predestinação e diz a um deles que nem mesmo os anjos, ao contrário dos indivíduos, podem ser livres e ter ao mesmo tempo, o seu destino prefixado. Ele é livre para cometer o bem ou mal, mas o seu destino está pré-traçado. Como podem coexistir a predestinação e o livre arbítrio? Ninguém responde e ele se resigna, afinal de contas, a aceitar esta contradição fundamental. Mas, no fundo, a imagem que cada qual interioriza deste mundo é um imagem fixa. O indivíduo passa pelo mundo e é exposto a tentações, vencendo-as o não, e a ação humana é valorizadíssima em Dante. Estamos em uma época que prepara o Renascimento, a idéia de que tudo, no fim, não passa de uma série de provas, de meio para separar os capazes de vencer os obstáculos daqueles que não conseguem fazê-lo. Em suma, o mundo é uma vasta escola ou é um enorme teatro, que representa fantasmagorias. O grande teatro do mundo é uma imagem que nasce na Idade Média e tem um desenvolvimento prodigioso na época barroca (mas aí já estou falando d Shakespeare). É uma fantasmagoria que, obscuramente sem revelar, veicula a verdades que só são atingíveis num plano extraterreno. O mundo é uma reprodução viciada, deteriorada e deturpada de um sobre-mundo que é perfeito, imutável hierárquico. Conhecemos a famosa fórmula que veio de Platão e encontra-se ao longo de toda Idade Média: "saber é reclamar", de onde vem a importância desta memória artificial, sobre a qual insisti muitas vezes. Porém, é preciso observar até que ponto possível precisar e até que ponto o conhecimento é pura reminiscência. Em princípio a reminiscência é a recuperação-impacto de um dado da memória, mas esta tem trabalhado individualmente para se integrar ao sistema que é parte da mente do indivíduo. Neste trabalho, há toda uma transformação. Desta forma, a memória que temos de um evento nunca pode ser a total recuperação do mesmo, tal como tenha ocorrido, pois a memória não é estática, uma vez que está sempre trabalhando sobre estimativas e alterando o passado. Então, há o problema em saber o que é que se tira do passado. Vemos o que diz Fernando Pessoa: "Era Feliz! Não sei." "Fui outror agora". Logicamente, isto parece um tanto estranho, mas não é. Talvez a Récherche du temps perdu esteja nestes versinhos. Ele era feliz, o foi no passado, a infância é um época feliz (a criança, apesar de chorar a todo momento por ninharias, por coisas sem importância, tem também grandes alegrias que, se para nós são coisas insignificantes para a criança não o são). Preserva-se qualquer coisa, qualquer coisa que é revivificada e aí está uma das páginas mais importantes da divina Comédia - é o começo do Paraíso. Notem que o Paraíso é uma criação de Dante, é sua mitologia pessoal e sua originalidade profunda. Como ele descreve, para penetrar no Paraíso, há primeiro um paraíso terrestre, onde encontra a árvore do bem e do mal. Exatamente como na tradição bíblica, para entrar neste país, ele passa por um rio chamado Letes, que vem da mitologia grega e significa esquecimento. Até aí está toda a tradição dos gregos e latinos, mas ele atravessa um prado e mergulha no rio; há uma personagem, Martírio, que ninguém sabe quem é. Mergulham Martírio com suas mãos, amparam e o mergulham num rio, cuja água possui o sabor mais delicioso e de vários aromas. Esse rio chama-se Eunoe. (1)


(*) Transcrição de fita: Conceição Aparecida Cabrini. Aula gravada em novembro de 1986. Fita cedida pela Profa. Dra. Jerusa Pires Ferreira da ECA/USP.

(**) Jerusa Pires Ferreira - Profa. Associada ECA-USP, Profa. do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Semiótica PUC-SP, Coord. do Centro de Estudos da Oralidade, PUC-SP, Coord. do GT Literatura Oral e Popular da ANPOLL. Autora de Cavalaria em Cordel. São Paulo, Hucitec, 2a. ed., 1993; Armadilhas da memória. Salvador, Casa de Jorge Amado, 1991; O Livro de São Cipriano. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1992.

(1) Um dos rios do paraíso terrestre. Purgatório XXVIII 121-133; 115-145.

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