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Artigos
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Cinema, Quantos Demônios! por Maria de Lourdes Beldi de Alcântara |
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Quando
inventaram o cinema a Igreja disse que aquilo era coisa do diabo;
agora que a Igreja descobriu que pode ser uma coisa de Deus, já
é do Diabo.
F.
FELLINI
Introdução
Comemorou-se,
no ano que passou, cem anos de cinema. Cem anos da invenção
de um dos espelhos que reflete a imagem do mundo e do espírito
humano. Dizia Epstein: que o cinema é psíquico. As
suas salas são autênticos laboratórios mentais
onde, a partir dum feixe luminoso, se concretiza um psiquismo coletivo.
Criou-se uma máquina voltada para criar, recriar e satisfazer
as carências do espírito humano, neste momento podemos
visualizar nossos sonhos, imaginar outros e nos realizarmos no imaginário
criado pelo cinema. A
imagem, já dizia Santo Agostinho, assegura toda a ordem simbólica,
na qual cremos infalivelmente, pois a própria crença
é imagem: ambas se constituem pelos mesmos processos a partir
dos mesmo temas: memória, vista e amor, ou vontade. Para
Santo Agostinho, a imagem sustenta a busca transcendental, mesmo
e mais ainda se ela for a imagem de um objeto identificável. A
arte cristã, na penumbra das igrejas, mais que ninguém,
conhece, multiplica e explora esta fascinação. A calma
reina frente ao inferno posto em imagem..(1) A
imagem , instrumento primeiro do cinema, cria não a falsificação
mas a satisfação das carências cotidianas, pois
o seu ritual tem início quando as luzes se apagam. Neste
momento ocorre o desligamento do real e portanto do mundo, estamos
abertos e preparados para entrarmos e compartilharmos as imagens
criadas pelo filme. Transportamos-nos, projetamos-nos, identificamos-nos
com os símbolos criados por nós, constituído
de elementos tirados de nós próprios. Neste momento
se dá a pura dialética do imaginário, onde
o real e o simbólico se fundem nos arrebatando para um momento
de puro êxtase que poderemos neste momento falar de religioso,
um momento de suspensão da ordem do real. A
CENSURA: A ATUAÇÃO DA LEGIÃO DA DECÊNCIA Este
paralelo traçado entre a ordem imaginária religiosa
e cinematográfica tem uma finalidade muito explícita,
isto é, mostrar a Igreja como uma instituição
transcultural e portanto, transnacional, que vai combater com todas
as sua armas a industria cinematográfica, sua maior concorrente
profana. O
que representa o cinema para esta instituição? Numa
resposta rápida, uma ameaça. Ameaça do quê?
De apresentar um novo estilo de vida, a dessacralização
do cotidiano, a falibilidade do núcleo familiar. Apresentando
respostas para a vida e para a morte fora do domínio do sagrado.
O cinema aborda temas que eram antes domínio da Igreja dando-lhes
um tratamento, na maioria das vezes, secular. Diante
desta imensa indústria que produzia através do star
systems, se não a reificação, mas um novo estilo
de vida que acompanhava a evolução frenética
das sociedades modernas, a postura desta instituição
era combater com unhas e dentes o seu campo de atuação
com a intenção de tentar proteger o seu campo sagrado.
Neste momento começa a cruzada moderna da Igreja contra a
indústria cinematográfica.
Muito embora a história do cinema não tenha tido a
sua origem nos Estados Unidos, foi lá que ele se constituiu
como indústria. Neste tipo de produção, onde
o que se vende é a imagem carregada de um mundo de representações
que influencia o receptor, este passa a sofrer um processo de ressemantização
do seu imaginário, através da enunciação
cinematográfica, ou seja, o processo pelo qual o espectador
se transporta para dentro do filme. Esse espectador pode se identificar
com algum personagem, com algum cenário, ou com algum diálogo,
e é neste momento que acontece a identificação
e, portanto a projeção do receptor em relação
à fita. Este
mecanismo da narrativa filmica, na maioria das vezes, tem a mesma
forma de construção da narrativa mágica (2).
O cinema , neste momento, torna-se o mito de nossa sociedade, e
com ele cria-se um ritual que se torna , portanto, sagrado. Diante
deste veículo que foi criado com a intenção
de entreter as massas, as organizações civis começam
então a se mobilizar contra este tipo de ameaça simbólica.
A primeira medida tomada foi em 1907, em Chicago, quando foi promulgada
a primeira lei de censura, para os exibidores de "distrações
baratas". Em 1927 (3),
mais de 48 leis foram introduzidas nas legislações
estaduais americana com a finalidade de controlar e censurar a distribuição
e exibição de filmes. Hollywood passou a ser olhada como a grande indústria que produzia a corrupção da sociedade americana, pois este tipo de indústria cinematográfica não "preservava o que os americanos acreditavam ser tradicional par o seu ideal" (4). Próxima Página • Última Página (1)
METZ, Christian; Kristeva, Julia; GUATARI, Félix; BARTHES,
Roland. Psicanálise e Cinema. Global Editora, 1980, São
Paulo, p.103 (2)
TODOROV, Tzvetan. Os Gêneros do Discurso. Martins Fontes,
1980, São Paulo. (3)
GRAZIA ,Edward de and Newman, Roger K. . Banned Films. Movies, Censors
and the First Amendment. R,R. Bowker Company, New York/London,1982,p.26. (4) Idem,p.26. |
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