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Artigos
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Dimensões da elaboração da experiência pessoal e coletiva em comunidades tradicionais da estação ecológica Juréia - Itatins por Maria Luísa S. Schmmidt e Miguel Mahfoud |
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Resumo: Esta comunicação tem o objetivo de analisar seis histórias de vida de moradores da comunidade de Cachoeira do Guilherme, localizada na Estação Ecológica Juréia-Itatins (São Paulo-Brasil). A comunidade é composta por oito famílias com trinta e dois indivíduos nascidos e criados na região, vivendo da agricultura e da pesca. A análise recai sobre as dimensões da confiabilidade e do tempo, tal como experienciadas e representadas pelos indivíduos nas suas relações com a tradição oral. This
paper proposes the analysis of six life stories of inhabitants of the
community of "Cachoeira do Guilherme", which is located in the Ecological
Resort Juréia-Itatins (São Paulo - Brazil). This community
is composed by eight families with 32 individuals born and grow in the
region, having their subsistence guaranteed through agriculture and
fishing. The analysis relies upon the dimensions of reliability and
time, as they are experienced and represented by the individuals in
their relationships with the oral tradition. Introdução Nesta
comunicação são apresentados resultados parciais
da pesquisa Experiência, tradição oral e religiosidade
em comunidades da Estação Ecológica Juréia-Itatins.
A pesquisa de campo foi feita junto à população
tradicional (1) de quatro
comunidades - Cachoeira do Guilherme, Parnapuã, Barra do Una
e Praia do Una - localizadas no interior da Estação que
ocupa importante área de preservação da Mata Atlântica
e ecossistemas associados. Ao contrário da tendência hegemônica
nas Unidades de Conservação brasileiras, a Estação
Ecológica Juréia-Itatins adota uma política de
ocupação e gerenciamento que defende a permanência
das comunidades tradicionais, valorizando a contribuição
cultural que estas podem oferecer como guardiãs dos recursos
ambientais e como portadoras de conhecimento precioso sobre a região.
Em
sintonia com esta orientação, o projeto de pesquisa teve
como objetivo geral fazer um inventário das condições
e dos fenômenos propícios à elaboração
e à transmissão da experiência presentes e atuantes
nas comunidades estudadas. Mais especificamente, visou apreender o modo
como as condições e os fenômenos inventariados aparecem,
são vividos e representados pelos sujeitos da experiência,
considerando-se, especialmente, os sentidos e as interligações
que os sujeitos lhes atribuem. Estes dois objetivos estiveram circunscritos
a duas regiões de fenômenos conectados: os da religiosidade
e os da tradição oral. O acesso à experiência
dos sujeitos foi feito através da coleta de relatos orais (histórias
de vida e depoimentos) (2),
complementados por observações etnográficas. Esta
comunicação detém-se na análise de seis
histórias de vida de moradores da comunidade de Cachoeira do
Guilherme. Situada em uma pequena porção da extensa planície
costeira ao norte do Maciço da Juréia, esta comunidade
perfaz oito famílias compostas por trinta e dois indivíduos
nascidos e criados na região ou oriundos de áreas vizinhas,
principalmente de Pariqüera. Vivem, basicamente, da agricultura
e da pesca com covo e são todos posseiros. Das quatro comunidades
estudadas, Cachoeira do Guilherme é a mais isolada e vive sob
a liderança religiosa e política do senhor Sátiro
- personagem conhecido e respeitado em toda a região pelos seus
conhecimentos de medicina popular e pelo seu carisma religioso. A religião
ali adotada é chamada de espírita, podendo, no entanto,
ser definida como um sincretismo entre espiritismo e catolicismo. As
histórias de vida aqui analisadas pertencem a: seu Sátiro,
já referido anteriormente; Ciro, atualmente funcionário
da Estação Ecológica, conhece profundamente a região
e suas tradições e participa das festas religiosas tocando
viola guapeana e cavaquinho; Pradel, irmão de Ciro e genro de
seu Sátiro, funcionário da Estação, lidera
a realização das festas religiosas - Folia de Reis, Bandeiras,
Juninas - tocando viola guapeana, cantando os versos tradicionais e
improvisando, conhece e transmite as técnicas de agricultura
e pesca locais; Orlando, filho de Pradel, sabe muitas histórias
de cunho moral e religioso, possui talento para a construção
de casas de madeira usadas na comunidade; D. Alice, mulher de seu Sátiro,
conhece histórias e casos sobre seres fantásticos; Paula,
filha de Sátiro e mulher de Pradel, é portadora de um
repertório enorme de histórias e casos que narra com vivacidade
e dramaticidade. (1)
De acordo com o Cadastro Geral dos Ocupantes - E.E.J.I. (SEMA, 1991),
a ocupação humana na Estação pode ser classificada
como tradicional ou adventícia, em função de quatro
fatores interligados, quais sejam: modalidade de uso da terra, situação
jurídica, situação histórica e situação
geográfica. As ocupações tradicionais são
antigas e se caracterizam por "terem uma economia baseada predominantemente
no trabalho familiar e na produção de bens primários
para consumo, terem fortes laços de parentesco, viverem em condições
de isolamento e possuírem o chamado folk, ou seja, conhecimento
em relação ao meio desenvolvido em virtude da íntima
dependência dos recursos naturais, devido a um maior ou menor
grau de afastamento de uma economia de mercado."(p.3) Já as populações
adventícias, "caracterizam-se por terem uma produção
de bens primários voltada para a comercialização
com a predominância de uma cultura agrícola, por uma maior
heterogeneidade cultural e histórica, pela ausência de
laços de parentesco e por pouco ou nenhum conhecimento específico
do meio." (p.3). (2) A história de vida é aqui definida como "relato de um narrador sobre sua existência através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu". (QUEIROZ, 1988, p.20). Demanda, por isso, encontros freqüentes entre pesquisador e narrador, sendo os relatos determinados pelo curso livre das lembranças do narrador. O depoimento define-se como "relato de algo que o informante presenciou, experimentou ou de alguma forma conheceu, podendo assim certificar." (QUEIROZ, 1988, p.20). Dito de outra maneira, o depoimento refere-se a uma esfera delimitada da experiência do narrador. (SCHMIDT, 1990). |
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